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A importância da Gestão da Qualidade em Empreendimentos Rurais

A gestão da qualidade consiste em uma estratégia de administração aplicada a qualquer tipo de organização e orientada a criar consciência da importância da melhoria contínua em todos os processos organizacionais. Esse conceito vem sendo cada vez mais introduzido nos ambientes empresariais e rurais, por permitir o alcance de melhores resultados a partir de ferramentas de planejamento, controle e liderança.


Se tratando de propriedades rurais e de cooperativas, é preciso encará-las como empreendimentos, como um negócio. Sendo assim, ferramentas de gestão são essenciais para a otimização de processos e consequente maior lucratividade. Nesse sentido, a gestão da qualidade busca assegurar matérias-primas com qualidade adequada às necessidades da agroindústria e contribuir para a redução de perdas. Logo, conhecer as etapas do processo produtivo e identificar oportunidades de melhoria são requisitos dos empreendimentos rurais. Desta forma, as ferramentas da qualidade surgem para auxiliar o empreendedor rural no processo de tomada de decisão.


Algumas agroindústrias possuem políticas de desenvolvimento e avaliação de seus fornecedores, que devem apresentar determinados padrões de qualidade a fim de obter algum tipo de certificação. A qualidade do produto está diretamente relacionada com a qualidade dos processos produtivos, por isso é importante ressaltar a tendência de mudança de mentalidade e comportamento, pois o que predomina hoje nas propriedades rurais, se baseia unicamente no processo de inspeção do produto final (SCALCO; TOLEDO, 2001).


Na grande parte dos produtos agrícolas, no final da cadeia agroalimentar vale a avaliação da qualidade percebida pelo consumidor, ou seja, propriedades sensoriais como sabor, forma, textura, beleza, etc. Porém, parte dos parâmetros e exigências de qualidade é oculta ao produto final, não sendo perceptível pelo consumidor final. Neste sentido, é preciso perceber que os processos envolvidos na produção e comercialização do produto precisam ser analisados a fim de garantir a qualidade esperada pelo consumidor, ou seja é preciso que haja uma mudança de mentalidade do produtor, passando a adotar uma postura pró ativa em relação a qualidade de seus processos e não mais reativa, onde se espera que seu cliente se manifeste em relação a algum parâmetro de qualidade não atendido (LIMA, 2004).

Se tratando de agroindústrias, normalmente é realizada uma análise, muitas vezes laboratorial, de amostras do produto entregue. Quando a amostra não atende os padrões de qualidade exigidos, é descartada e é informado em qual, ou quais, parâmetros o produto foi reprovado. Porém, não é informado ao produtor rural onde está o problema em sua cadeia produtiva, ou o que pode ter ocasionado tal problema. Uma vez que seu produto é descartado, pode não ser tão simples se inserir novamente no mercado. Logo, é essencial que o empreendedor rural identifique pontos de melhoria do seu empreendimento a fim de garantir a qualidade esperada pelo consumidor.

É importante também ressaltar que o produtor rural deve compreender os caminhos que seu produto percorre ao longo de todos os segmentos da cadeia produtiva. O desenvolvimento de uma visão sistêmica do complexo agroindustrial, partindo de dentro das porteiras das fazendas, torna-se fundamental para o sucesso do negócio, já que não basta ser eficiente em sua atividade se o sistema como um todo não estiver sendo eficiente. Assim, a propriedade rural deve estar integrada com as outras partes desse sistema, desde o setor de insumos, passando pela produção rural e agroindústrias, até chegar à distribuição dos produtos (LIMA, 2004).


A gestão da qualidade deixou de ser um aspecto de produto e passou a ser um problema da empresa, abrangendo todos os processos. Sendo assim, ferramentas para auxiliar na identificação e priorização das possíveis dores do empreendimento rural são essenciais, a fim de permitir ao produtor sair da etapa de inspeção do produto final e avaliar seus processos de forma individual e efetiva, agregando valor ao seu produto e construindo vantagens competitivas.


Uma ferramenta utilizada no processo de identificação de problemas é o Diagrama de Causa e Efeito, também conhecido como diagrama de Ishikawa ou de espinha de peixe, é uma ferramenta de representação das possíveis causas que levam a um determinado efeito (problema). Com a devida identificação das causas é possível traçar medidas mais efetivas para atacar o problema. O diagrama é uma ferramenta analítica, desenvolvida pelo Professor Kaoru Ishikawa (de onde vem um dos nomes da ferramenta) da Universidade de Tóquio na década de 60, que e foi muito utilizado nas indústrias com objetivo de encontrar e apresentar fontes de variações em processos, a fim de identificar as causas que potencialmente produzem o efeito que se quer combater. O diagrama se assemelha a uma espinha de peixe, onde no seu eixo horizontal está o efeito (problema) e nas laterais as possíveis causas (SILVA, 2018).


Na maioria das vezes, pode ser mais simples analisar informações quando estão apresentadas de forma gráfica ou esquemática, logo o diagrama de causa e efeito, além de definir o problema, pode ser uma excelente ferramenta de comunicação no empreendimento. As causas podem ser agrupadas em seis categorias: método, material, mão de obra, máquina, meio ambiente e medida (6M). Na área administrativa, pode-se dividi-las em: políticas, procedimentos, pessoal e planta (layout). Porém, estes agrupamentos podem ser adaptados de acordo com a realidade de cada organização.


Em linhas gerais, deve-se seguir os seguintes procedimentos para a elaboração do diagrama de causa e efeito:

  1. Defina o problema a ser analisado pela equipe - OBJETIVO;

  2. Desenhe uma seta horizontal que aponte para a direita e faça um quadrado na ponta;

  3. Escreva seu problema/efeito central dentro desse quadrado;

  4. Faça traços diagonais no corpo da seta, que serão as categorias das suas causas encontradas;

  5. Realize um brainstorming com sua equipe para definir as possíveis causas. Essa é a parte mais demorada e trabalhosa do método, portanto, é importante focar em seus detalhes para que ela seja bem realizada;

  6. Dentro das categorias definidas pela equipe, insira as causas encontradas;


Figura 1:Diagrama de Ishikawa. Fonte: LIMA, 2004


O diagrama de causa e efeito permite visualizar qual efeito indesejado está acontecendo e quais as possíveis causas deste, além de estruturar visualmente possíveis estratificações a serem aplicadas na resolução dos problemas. Segundo Bonfim e Souza (2018), além da ferramenta ser uma representação qualitativa, promove a troca de conhecimentos e experiências entre os envolvidos no processo, com o objetivo de identificar, organizar e apresentar graficamente de modo estruturado as causas dos problemas, com uma visão sistêmica, facilitando a compreensão dos colaboradores envolvidos ou não no processo.


Depois de identificadas as causas do problema é interessante que essas sejam priorizadas, pois para se solucionar um problema são necessários alguns recursos, não só financeiros, é preciso levar em consideração fatores como tempo e mão de obra (qualidade e quantidade), por exemplo.


Assim é importante que as causas dos problemas sejam priorizadas, pois após uma avaliação dos recursos disponíveis, pode não ser possível atacar todas as causas encontradas. Dessa forma, com o objetivo de definir onde os recursos disponíveis, ou os maiores esforços serão alocados podemos utilizar uma ferramenta conhecida como Matriz GUT.

A Matriz de Gravidade, Urgência e Tendência (GUT) é uma maneira quantificada que estabelece uma prioridade para abordar os problemas, visando minimizar os impactos. Se baseia na atribuição de notas para aspectos de gravidade, urgência e tendência, contribuindo para a tomada de decisão da empresa, bem como a definição de suas estratégias e políticas a médio e longo prazo.


Com uma lista de causas de problemas definida (pelo diagrama de Causa e Efeito, por exemplo) atribui-se um número inteiro, entre 1 e 5, a cada uma das dimensões (G, U e T). O número 5 corresponde a maior intensidade e o 1 a menor, e os valores obtidos para G, U e T, a fim de se obter um valor para cada problema ou fator de risco analisado. Os problemas que obtiverem maior pontuação serão tratados prioritariamente (MARSHALL, 2008)

A Gravidade trata do impacto que o problema gerará nos envolvidos, podendo ser os colaboradores, os processos, tarefas, resultados da empresa etc. A análise é feita nos efeitos que o problema, caso não seja resolvido, acarretará em médio e longo prazo. Uma pergunta norteadora é: “Quais efeitos que o problema, caso não seja resolvido, acarretará a médio e longo prazo?”.

A Urgência é o prazo, ou o tempo disponível para a resolução do problema, ou seja, quanto menor o tempo, mais urgente será o problema que deverá ser resolvido. O recomendado é fazer a pergunta “Isso pode esperar?”.


A Tendência trata da probabilidade (ou do potencial) que o problema tem de crescer com o passar do tempo. Aqui é feita uma previsão da evolução do problema. A pergunta a ser feita é “Se eu não resolver isso hoje, o problema vai piorar aos poucos ou bruscamente?”.

Os problemas devem ser listados e classificados de acordo com a Tabela 1 a seguir, onde apresentamos parâmetros que podem ser considerados de acordo com a escala apresentada abaixo:


De posse dos valores, estes devem ser multiplicados, sendo que os que atingirem maiores pontuações devem ser tratados prioritariamente. A seguir, apresentamos um exemplo de aplicação da Matriz GUT, onde a prioridade de resolução seria em relação a ineficiência da planilha orçamentária.


É preciso salientar que não existe apenas um caminho ou uma metodologia que vá garantir o sucesso do empreendimento. Cada empreendedor deve avaliar, experimentar e identificar qual ou quais ferramentas serão mais adequadas para seu negócio, pois sabemos o quão dinâmicos os processos podem ser, principalmente no meio rural onde estamos mais expostos a fatores que fogem do nosso controle. A gestão da qualidade trabalha para tentar reduzir o risco nos empreendimentos rurais, sendo movida pelo que chamamos de melhoria continua e, portanto, é função do empreendedor estar sempre avaliando e mesurando seus resultados, a fim de definir a melhor estratégia de identificação e resolução de problemas.

Referências

BONFIM, E; SOUZA, N. Ferramentas estatísticas para processos industriais. São Paulo: SESI SENAI Editora, 2018.

LIMA, L. S. Modelo de sistema de gestão da qualidade para propriedades rurais leiteiras. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos, 2004.

MARSHALL, J. Et al. Sistema de Gestão da qualidade. 9ed. Rio de Janeiro: editora FGV, 2008.

PALADINI, E.P. Gestão da qualidade: teoria e prática. Atlas, São Paulo, 2004.

SCALCO, A. R.; TOLEDO, J. C. DE. Gestão da qualidade em cadeias de produção agroindustriais. XXI Encontro Nacional de Engenharia de Produção, p. 1–8, 2001.

SILVA, A. K. J. DA. Ferramentas da qualidade aplicadas a gestão de estoque: Estudo de caso em um Centro Universitário na cidade de Marechal Deodoro-AL. Maceió: Centro Universitário CESMAC, 2018.

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